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Cheiro de início



Em, 3.2.2011
Por  Pietra Luña


As aulas estão aí. Com elas, vêm as listas de material escolar. Com elas, a bateção de pernas. Com elas, a exaustão. Com elas, a interminável "encapação" de livros.  Com ela, a vontade de voltar às férias. Um aparte, é impressionante como início de ano tem contas a pagar e demandas para resolver. 

Nessa busca insana, ainda bem que em tempos de internet e código do consumidor temos o Procon para dar uma força, contudo acabei optando pelo menor esforço e os meus critérios para seleção da loja a comprar foram: 1) fugir do péssimo atendimento da Casa do Colegial , 2) comprar onde o material fosse todo encapado com contact transparente e 3) ficasse perto de casa. Acabei indo parar na Britto, que não sei porque razão essa não participou da pesquisa do Procon e também não faço ideia se paguei mais caro ou não (mais um prejuízo para computar nos meus 35%?)

Deixei meu lado consumidora consciente debaixo do tapete, para poupar minha irritação de pesquisar preços, pular de mal atendimento em mal atendimento, mau humor de vendedores, filas intermináveis nos caixas, estacionamentos cheios e pagos; essas finesses do pré-começo-de-ano-escolar. Não me arrependo, mas tenho do que reclamar (hehehe). Claro, sempre! No caso, o pior foi o pós-venda (problema sério no Brasil). A "listinha", que ficou em quase mil pilas (isso sem o material coletivo que não compro), só estaria pronta para entrega (livros esgotados, por encomenda) duas semanas depois. Mesmo ligando mil vezes, não conseguia uma informação clara e a ligação ficava pulando de ramal em ramal com a chata Pour Elise ao fundo (sorry Beethoven, mas acabaram com sua música).

O bom mesmo de tudo isso é o cheiro. Quando peguei os livros, cadernos e miudezas fiquei sentindo aquele cherinho bom de plástico, borracha, papel novo. Delícia! Eu tenho certa tara por papelarias, mesmo nunca tendo transado com uma. Só não encapo mais o material das crianças porque dá uma trabalheira e prefiro gastar esse tempo blogando! 

Quando minha garotinha foi arrumar a mochila,  ao pegar um treco qualquer no armário, falou: "mamãe eu adoro o cheiro desse armário, ele me lembra quando eu era pequena". Eu ri. Alguns cheiros se eternizam na memória. Na minha tem cheiro de aniversário, cheiro de natal, cheiro de viagens, cheiro de um porão, cheiro de certas épocas. Eu lembro vividamente do cheiro de café torrado das minhas férias. Nada como um cheiro de início. 

Pra que chorar? "Tears dry on their own"



Em, 25.1.2011
Por  Pietra Luña



Dando uma volta pela quadra vi uma garotinha (três anos, talvez) esgoelando-se no melhor estilo Edson Cordeiro. Alguma insatisfação a debulhou. Imediatamente, remeti-me ao passado e tentei recordar das minhas lágrimas. Conta a lenda (porque tudo que dizem sobre nós é praticamente uma lenda, quando os narradores são da família. Mães, principalmente!), que eu era uma menina chorona, exagerada e dramática (?!); características que atualmente reúno em mim como "intensa". 

Pois bem, já que a história "me revela" com tons tão fortes, fui procurar na memória alguma cena de desespero ostensivo. Resultado? Não achei. Lembro-me bem das dores caladas, dos choros engolidos, das mágoas retidas. Claro que eu devo ter feito berreiros, mas não registrei. Ao contrário, quando olho a infância não vejo quase nada. São poucos os rastros e são desbotados; o que não significa inexistentes no tempo das coisas, porém desaparecidos do tempo das emoções. 

Aquele buaaaaaá estendido, agudo e irritante (detesto choro esganiçado) mobilizou tantas sensações, que meu pensamento não conseguia se desviar do "ato de chorar". Quantas vezes escuto as terríveis frases "engula o choro", "homem não chora", "mulheres são choronas". Assim como, conhecemos tão bem as "lágrimas de crocodilo". No entanto, chorar faz bem à saúde e, cumprindo suas funções,  acalma e comunica. Alivia a angústia e libera a tensão.  Chantageia também. 

Pensando bem, as lágrimas são recursos mais do que simplesmente orgânicos, pois são culturais e se bem utilizadas se transformam em excelentes ferramentas dos astutos para praticarem suas manipulações e trocas. Curiosamente, durante a madrugada Maurício do BBB11 falou sobre o desespero que leva às lágrimas. Disse algo do tipo "estou sentindo aquela dor igual a da criança que chora convulsivamente quando pensa que o pai a esqueceu na escola ou quando a gente leva um fora da namorada e o chão se abre sem você ter ideia do amanhã". Ele dizia que já teve esses choros desesperados. Eu, também, por outros motivos. Ele hoje está no paredão. Eu, também, por outras prensas. Será que ele vai chorar? Eu não, porque na virada dos 40 estou mais para a Amy Whinehouse, com suas lágrimas secas. Ao longe, ainda ouço a voz da menininha ecoando por sua juventude. 






"Chororô, chororô, chororô
É muita água, é mágoa
É jeito bobo de chorar
Chororô, chororô, chororô
É mágoa, é muita água, a gente pode se afogar"
Gilberto Gil

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