Consumidor descartável joga dinheiro no lixo




Em, 20.1.2011
Por  Pietra Luña



Você já teve a sensação de rasgar dinheiro? Eu cada vez mais me sinto assim: largando grana no lixo! Sinceramente, eu não sei se é apenas uma sensação ou se estamos de fato jogando fora nosso suado dindin. Janeiro é um mês bão pra isso! Impostos, material escolar, cartão de crédito com ressaca de dezembro.

Antes, um aparte. Morar em Brasília requer uma capacidade de sobreviver no limite. Seja do cheque especial, seja da dignidade (sem a prática costumeira da locupletação, especulação e outros jeitos antiéticos de viver no Brasil), seja da lucidez surto (=desespero que sente o honesto ao chegarem as contas básicas de habitação, alimentação, educação, saúde, vestuário etc.). Eu, obviamente, junto os três e tomo com limão para ver se dá barato no fim do mês.

O alto custo de vida da cidade já virou um clichê entre aqueles que aqui moram. A gente sabe que se o sujeito não for um "concursado" público de um órgão que paga muitooo bem, terá grandes dificuldades em viver com qualidade de vida  (leia-se morar no Plano Piloto = morar perto do trabalho, não enfrentar um trânsito louco, colocar as duas crianças em escolas de alto nível, sair alguns fins de semana e viajar uma vez por ano à praia - isso para não exagerar muito, algo que um salário de 10 mil resolva mais ou menos). Então, se a sua cifra for inferior aos cinco dígitos, sua rotina será cada vez mais surtante, principalmente, para quem nasceu ou mora aqui desde o início da capital (tema para outro post). 

Voltando ao tema do dinheiro mal empregado, nos anos 60, 70 e 80 não era tão fácil consumir em Brasília. Não havia produção local, tudo praticamente vinha de fora e com preços abusivos (cidade nova, lei da oferta e da procura). O acesso a roupas, móveis, brinquedos, alimentos era tão difícil quanto percorrer a distância da nova capital federal até o polo sul-sudeste de fabricação/distribuição. Isso, talvez, tenha contribuído para que déssemos (pelo menos minha família) algum tipo de valor aos bens duráveis. Então, pagar tantos cruzeiros, cruzados, cruzados novos pelos objetos era um investimento para se ter quase a certeza de que aquele sofá xadrez de vermelho e preto duraria pelo menos uns 20 anos ou que aquela TV, finalmente, colorida serviria a mais duas gerações. 

Não havia ainda a lei do consumidor, parida nos anos 90 (criada por causa da livre concorrência e expansão dos mercados) para garantir isso e aquilo sobre entrega, fornecimento, propaganda enganosa e outros direitos daquele que compra. No entanto, o consumidor não era um ser tão descartável quanto agora. Ainda que sem lei de amparo, havia mais honestidade naquilo que se vendia, até porque as tecnologias eram mais limitadas, os produtos era em menor quantidade e variedade. Ou seja, o dinheiro mais das vezes valia o que se levava. 

Os produtos eram mais duráveis sim e, mesmo o custo sendo mais alto, sabia-se distinguir aqueles de primeira linha de outros de quinta. Era mais fácil saber se a roupa era de feira ou de boutique. Ninguém usava roupa da Fofi achando que vestia Company. Sempre houve pirataria, mas agora há putaria! Está tudo junto e misturado e não é programa (de humor), é de horror! 

Isso significa que uma carteira (ops! consumidor) ao entrar em uma loja devidamente maquiada (bonitona, feito gente-nova-velha-com-botox que a gente não sabe mais a idade, origem, sexo) sairá de lá nua e carregando sacolas mais fortes e duráveis do que os produtos que as integra. A haja garantia estendida (outra farsa, manobra dos anos 2000 para engabelar clientes, uma vez que já sabem vender porcarias), pois quem se estende, caído no chão, é o consumidor de tanto esperar, chorar, berrar e se F$%#$#. 

Enquanto a indústria eletrônica cresce 13% em 2011, você sabe quanto tempo durará (sem rachar) o botão giratório do seu liquidificador novo? Você tem ideia de quanto tempo o coller do seu nada barato notebook vai girar sem ficar histérico, rouco ou mudo? E, por fim, você tem noção de quantos chineses se matam duplamente (em horas de trabalho e suicídio) para fabricar o que a China exporta "competitivamente"? 

Segundo "minha nova teoria", os trabalhadores e consumidores valem muito menos dos que descartáveis que fabricam e compram e são mais descartáveis que os próprios descartáveis. Confuso? Aquele copinho de plástico que você usou na festinha de aniversário da sua prima irá sobreviver muito mais gerações de copos do que você, a diferença está nas lixeiras usadas e no processo de reciclagem. Creio que no ciclo da decomposição, se esqueceram de incluir o homem , pelo menos já incluíram na coleta seletiva a lixeira de cor marrom (para orgânicos) para depositarmos nossos corpos mortos de tanta luta para sobreviver com dignidade no meio de tanta enganação. 


Não sou boa na matemática, mas talvez eu consiga viver - "dignamente" segundo os direitos básicos da Constituição Federal  - com os 20 e poucos% que restam do meu salário, porque 40% eu já era privada jogava nos impostos e agora separei 35% (?) para jogar no lixo. Eles irão para: consertos dentro do possível de alguma duração futura; perdas injustificadas; tempo gasto em reclamações; perecíveis podres que ficam debaixo dos bons na caixinha; compras gato por lebre; canetas que pifam na terceira usada; lápis que acaba só de apontar; vestidos que se descosturam na primeira usada; blusinha que se deforma na primeira lavada; shampoo que não espuma; sapato que descola a sola do bico antes mesmo de uma chuva; DVD que treme no segundo filme; CD que não grava e mais; a porta de correr do armário que já emperrou no segundo dia; armário feito sob medida que não cabe na medida; eletricista que troca a fiação e ela continua dando problema; oficina mecânica que cobra mas não faz; e mais, muito mais. Acho o 35% serão poucos para tanta porcaria.



2 comentários:

  1. A mais pura verdade!
    Adorei (pra variar)...

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  2. O melhor de tudo é que o brasiliense não se acha nem um pouco consumista ou superficial...

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