Mães predadoras


Em, 4.2.2011
Por  Pietra Luña


Há uma santificação de mães que me incomoda. Essa coisa canonizada de maternidade e paraíso não me convence; muitas amigas dizem o mesmo. Penso inclusive que nem toda mulher tem as habilidades necessárias para ter filhos, ainda que consiga gerá-los e pari-los. 

Eu estou entre a falta de habilidade e o senso de responsabilidade, o que no fim das contas é a busca por um meio do caminho: nem tão paparicados,  nem tão largados. Sou mãe suficientemente má (ou boa), pois quero que minha filha tenha o caminho próprio da personalidade e desejos dela e não minha projeção (ainda que seja muito difícil ficar invisível diante de).

Entretanto, conheço umas mães predadoras que comem vivos os filhos e quando eles não morrem para a vida, ficam aleijados. São "boazinhas" demais em nome do "futuro" dos filhos. Nem vou comentar sobre o papel masculino, porque tirando um pai atuante que conheço, o resto é tão ausente que nem considero pais, apenas reprodutores. 

Voltando à mulherada parideira, vejo umas e outras fodendo a vida dos jovens em nome do bordão "fazer o melhor por eles". Aqui não tentarei decifrar as motivações psico-emocionais-físico-financeiras-genético-culturais que leva cada mãe a ferrar um filho, porque alguns fatos são mais reveladores do que os divãs.

Uma delas teve filho aos 43 e trata o menino - desde bebê - como um gênio prodígio. Felipe aprendeu a ler antes dos dois anos, em compensação morria de medo dos balões no dia do niver. Ele podia identificar a frase "feliz aniversário" pintada nas bexigas, mas não ousava chegar perto delas. Enquanto isso, os coleguinhas analfabetos jogavam as bolas pelos ares.

Tudo bem, a gente no começo dessa aventura chamada maternidade não sabe mesmo o que fazer. O problema que me assalta a alma é ver mães detonando seus filhos adolescentes justificadas por um  egoísmo travestido de amor. 

Na espera do consultório, acompanhei um incrível diálogo que se resumiu em: a mãe procurava uma terapia para o filho, porque queria que ele, adolescente de dezesseis anos, fosse mais "comunicativo", pois parecia muito tímido, sem namoradas e pouca fala. A questão é que o garoto não era tímido, não namorava porque não queria e falava pouco sobre os problemas (da mãe com o padrasto) que a ela trazia para ele. Ela queria que ele fosse igual a ela: tagarela atiçada! Um imbróglio!  

Outra foi minha tia quem contou. O filho da vizinha fazia supletivo primeiro grau para chegar logo ao ensino médio, uma vez que tinha reprovado duas vezes e "precisava" fazer vestibular antes dos 18 anos para manter a pensão alimentícia (recebida do pai ausente) até os 24 anos . Tudo isso sem a mãe se importar com a falta de base escolar desse garoto. Tudo por dinheiro.

Há mais exemplos, mas deixemos pra lá. Neste começo de século XXI,  em nossa cultura, os valores humanos estão focados em descartes, dinheiro, esperteza, pressa. Espera-se dos humanos que rapidamente sejam "alguém na vida" (o que é isso mesmo?), "formem suas famílias exemplares" (Angélica e Huck?), "ganhem muito dinheiro"(prêmio BBB?), "sejam manobristas do obstáculos sem maiores critérios" (Lei de Gérson). E as mães têm contribuído muito para que essa cultura permaneça intacta e alimentada. 

O Cisne negro está aí para sugerir como as mães podem fazer estragos na vida dos filhos (no caso filha). Tem outros tantos filmes que mostram a maternidade predadora. E a culpa, dizia Freud (ou como ainda reforça a mídia rasteira), é sempre da mãe. Claro, porque é ela quem carrega o filho no ventre e muitas vezes na vida. Sem útero não há nascimento e depois que nascemos há dor. Só as futuras mães podem evitar a dor da vida (abortando os fetos). A solução talvez esteja em abortar, em vida, algumas mães; pois mais insuportável é conviver com mães predadoras. Terapias bem-feitas servem para isso.

Cheiro de início



Em, 3.2.2011
Por  Pietra Luña


As aulas estão aí. Com elas, vêm as listas de material escolar. Com elas, a bateção de pernas. Com elas, a exaustão. Com elas, a interminável "encapação" de livros.  Com ela, a vontade de voltar às férias. Um aparte, é impressionante como início de ano tem contas a pagar e demandas para resolver. 

Nessa busca insana, ainda bem que em tempos de internet e código do consumidor temos o Procon para dar uma força, contudo acabei optando pelo menor esforço e os meus critérios para seleção da loja a comprar foram: 1) fugir do péssimo atendimento da Casa do Colegial , 2) comprar onde o material fosse todo encapado com contact transparente e 3) ficasse perto de casa. Acabei indo parar na Britto, que não sei porque razão essa não participou da pesquisa do Procon e também não faço ideia se paguei mais caro ou não (mais um prejuízo para computar nos meus 35%?)

Deixei meu lado consumidora consciente debaixo do tapete, para poupar minha irritação de pesquisar preços, pular de mal atendimento em mal atendimento, mau humor de vendedores, filas intermináveis nos caixas, estacionamentos cheios e pagos; essas finesses do pré-começo-de-ano-escolar. Não me arrependo, mas tenho do que reclamar (hehehe). Claro, sempre! No caso, o pior foi o pós-venda (problema sério no Brasil). A "listinha", que ficou em quase mil pilas (isso sem o material coletivo que não compro), só estaria pronta para entrega (livros esgotados, por encomenda) duas semanas depois. Mesmo ligando mil vezes, não conseguia uma informação clara e a ligação ficava pulando de ramal em ramal com a chata Pour Elise ao fundo (sorry Beethoven, mas acabaram com sua música).

O bom mesmo de tudo isso é o cheiro. Quando peguei os livros, cadernos e miudezas fiquei sentindo aquele cherinho bom de plástico, borracha, papel novo. Delícia! Eu tenho certa tara por papelarias, mesmo nunca tendo transado com uma. Só não encapo mais o material das crianças porque dá uma trabalheira e prefiro gastar esse tempo blogando! 

Quando minha garotinha foi arrumar a mochila,  ao pegar um treco qualquer no armário, falou: "mamãe eu adoro o cheiro desse armário, ele me lembra quando eu era pequena". Eu ri. Alguns cheiros se eternizam na memória. Na minha tem cheiro de aniversário, cheiro de natal, cheiro de viagens, cheiro de um porão, cheiro de certas épocas. Eu lembro vividamente do cheiro de café torrado das minhas férias. Nada como um cheiro de início. 

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