Colagens para ficar inteira


Em, 1.2.2011
Por  Pietra Luña


Há dias em que a gente acorda com medo, no outro com saudades e em algum até com raiva. Às vezes, a gente se transforma na hora do almoço, após ver uma notícia, suar no trânsito ou não comer. Talvez, a gente vá se modificar durante o jantar quando abre o envelope do banco, recebe flores inesperadas ou um torpedo de promoção da loja preferida. Quem sabe, a gente se altere mesmo antes de ir dormir, no momento em que o alarme do vizinho dispara, o porteiro interfona errado, o marido proporciona o orgasmo mais fantástico dos últimos seis meses. Num átimo, a gente pode se perturbar de madrugada ao perceber que o filho não chegou em casa, ao fazer xixi mais escuro do que deveria, ao atacar a geladeira no meio da dieta. 

Acho mesmo que a gente não sabe quando. Vai acontecendo. O sangue vai percorrendo as veias, a gente vai percorrendo as ruas; o coração bombeia, a gente bobeia; o pulmão esvazia, a gente estoura; o rosto enruga, a gente se magoa; a corpo segue, a gente também. 

Acho mesmo que a gente não sabe para onde está se movendo. A gente "vai indo". Amores aparecem, namoros terminam, parentes desaparecem, amigos retornam, empregos são largados, filhos nascem e a gente vai sendo alguém depois de cada movimento. 

Acho mesmo que a gente se despedaça buscando ser inteiro. Vamos nos colando e colando-nos nos outros. Desmontando-nos(-os) sem (e por) querer. Vamos nos recortando e nos emendando como dá ou não dá. A gente levanta e vai, cai, sai.

Entrou (na minha caixa de mensagens lotada) o assunto "poesia e música de primeira com Otto". Abri e li a letra de uma música chamada "6 minutos". Chorei por duas horas. "E até pra morrer. Você tem que existir". Viciei no cara, parei o trabalho e fui youtubar a tarde toda. "São flores de um longo inverno. Seis minutos, instantes acabam a eternidade. Isso é pra viver, momentos únicos". Delirei. Resolvi conhecer as músicas do Otto que "recolhe seus cacos escritos". Em homenagem a ele, nesta tarde gazeteada, colei alguns versos arrancados da mistura de suas músicas.

"Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Tua pele é crua. Dificilmente se arranca a lembrança, por isso da primeira vez dói. Por isso, não se esqueça: dói. Naquela noite que eu chamei, você fodia, fodia. 


Quando eu perdi você, ganhei a aposta. Bati a porta. Saí morrendo de medo do desejo de ficar. Naquela noite que eu chamei, você fodia, fodia. Num dia assim, calado, você me mostrou a vida. E agora vem dizer pra mim que é despedida. Tua pele é crua. Crua. Por isso da primeira vez, dói. Pra não temer, temer, temer. Desses tempos verdadeiros, tempos maus. 


Vai brincar na areia para acreditar. Meu mundo dança e aqui se embalança. Conforto alucinante, tranquilidade na clareira do caos. O ponteiro, ele rodou mais rápido no mesmo relógio de ontem. O que as horas guardam nos espaços do contratempo? A mulher? Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Por isso da primeira vez, dói. O desejo é um tempo parado. É quando aumenta a rachadura da velha parede. É quando se vira a folha, a folha da história. É quando se endurece o rastro de sorriso no canto dos olhos. Por isso da primeira vez, dói. 


Eu sei que a viagem é longa. A voz vai e vem: você tá aí? você tá aí? Ei, você está aí? Tua pele é crua. Na vida tudo pode acontecer. Partir e nunca mais voltar. Como um bom barco no mar, eu vou, eu vou. Aqui há paz e alegria, antes que você perceba que não deu, não deu, não deu. Esse mundo não é meu, vou voltar a procurar. Aqui é festa amor e há tristeza em minha vida. Pra ver, tu pode até fingir que não me viu, jurei pro amor um dia te encontrar. Por isso da primeira vez, dói. 


Eu sei que a viagem é longa. A voz vai e vem: você tá aí? você tá aí? Ei, você está aí?  O leite, o sentimento, a bruta, esfera, o fim, o jeito, o medo, o beijo, o vero, o ero, o raro, o falo, o dado, o olho tosco, o rosto, sopro, gosto ruim. O que as horas guardam nos espaços do contratempo? Ei, você está aí? Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Por isso da primeira vez, dói.". 

"Nessa desproteção que é viver, não há blindagem para a dor", mas a gente certa manhã acorda de sonhos intraquilos. Outros pesadelos, certamente, virão. Outras gazetas também. Enquanto isso vou fazendo colagens para ficar inteira. Ei, você está aí? 







"Na vida tenho muito que dançar
Para aguentar o peso"

2 comentários:

  1. "Quando eu sai da tua vida
    Bati a porta
    Saí morrendo de medo do desejo
    Do desejo de ficar!" otto

    Esse cara é bom!

    E seu blog é fera!

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