Finais felizes!

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Em, 5.4.2011
Por  Pietra Luña


Acabo de terminar um noivado de dois anos. Iria me casar no meio deste ano e, 90 dias antes, vi que o noivo tinha objetivos de vida muito diferentes do meu. Ele queria estar no mundo ditando normas de conduta para os outros, avaliando o certo e o errado da vida alheia, teorizando sobre decisões humanas. Eu quero estar no mundo desconstruindo olhares, conhecendo motivos variados para existir, acolhendo vulnerabilidades por saber o quanto doem, porque a vida é agora.

Não foi uma decisão fácil, porque havia uma excitação forte entre nós. Eu sugava o que ele me oferecia de novo e ele a minha audiência. Sou assim. Já tínhamos providenciado toda a logística para ficarmos juntos. Eu trabalhei muito para fazer o enxoval no melhor nível, com alta classe. Tudo bem passado, esmerado, nota dez. Faltava apenas enviar os convites para a festa e foi no dia de escrever o texto que me dei conta: “o que desejo dizer para marcar esse momento tão importante?” Travei. Chorei.

Era um ritual de passagem. Sair de uma condição para outra. Algo que nós seres sociais temos alguma necessidade de divulgar ou somos cobrados a fazê-lo. Da mesma forma que o pedido aceito de casamento foi alardeado, para felicidade geral, o casório também devia ter o mesmo tratamento; até maior dada a relevância que a sociedade a ele atribui.

Eu não estava feliz. Os preparativos para o casamento tinham me exaurido. Muitas discussões sobre ser assim ou assado. Divergências praticamente intransponíveis para ambos. Cheguei a comentar com alguns amigos e sempre a mesma recomendação: “calma, você está estressada. Vai passar”. Duvidei.

Imaginar-me entrando na igreja, arrastando o véu longo de tecido caro, com um sorriso estampado no rosto era impossível. A única imagem que eu enxergava era de desespero, medo e vontade de correr escadas abaixo gritando: “naaaãoooooooooo!” Havia um pânico em fazer a troca de alianças e sustentá-la no dedo para o “sempre”.

Vinha no pensamento o arco dourado reluzente, definitivo, e alguém a perguntar: “quem é o seu marido?”, “quantos filhos vocês têm?”, “onde passaram as últimas férias?”. E eu me constranger ou tentar responder que aquele casamento era de fachada, pois eu antevia que não haveria filho, que não iríamos a congressos juntos, que não me orgulharia dele ao meu lado na mesa de um bar ou na festa de aniversário da prima. Apenas seria confortável dizer “eu sou casada”.

Casar para ser casada? Não. Já havia feito dois outros casamentos praticamente nas mesmas bases, porque tinham me convencido de que era o “melhor para mim”. “Sabe né, mulher sozinha, solteirona... não vive bem”, “ah, fulano nem é tão ruim assim! Quem sabe você passa a amá-lo?”, “todo homem é assim, maltrata um pouco, mas é bom”. Chega! Esse raciocínio não me servia mais. Até tive algum ganho nas situações anteriores, porém depois dos quarenta não deveria pesar mais a vida pelas migalhas. O momento do tudo ou nada se apresentou diante da fotografia do buquê de orquídeas lilases que eu jogaria a alguma amiga louca para casar.

Então, hoje, quando comecei a rascunhar na tela do meu computador a frase “convidam para...”, senti a coluna se erguer e as mãos quase involuntariamente agarrarem o teclado para digitar “... cerimônia de desenlace. Os ex-noivos receberão os cumprimentos no salão B, por terem – em tempo hábil – descoberto a incompatibilidade que se arrastaria como peso morto pela vida de ambos. As famílias fazem questão de receber os convidados para comemorarem essa decisão tão sábia, que propiciará harmonia interior e respeito às individualidades e às diferenças dos ex-nubentes, para que a morte não os una em vida”.



Respirei aliviada. Finalmente tinha me dado conta de quantas decisões importantes tomei e quanta energia investi contra minha própria satisfação, em nome de uma “verdade” construída menos por minha intuição, sensibilidade, e mais pelo meu ambiente, família, cultura, cidade; para os quais se sobrepõem as leis do “mais vantajoso”, “maior dinheiro”,  “certo”,  “melhor para mim”, “a vida é difícil mesmo”, “são os ossos” e blábláblá. Desta vez não. Podia pegar o avião, mais uma vez, na quarta-feira. 

Recordei um a um os atalhos que percorri, achando ser o caminho mais fácil, rápido ou garantido. Puro medo de ser eu e assumir minha diferença, minha falta de enquadramento, minha dispersão da multidão, que na minha fantasia é um tanto mais vacinada para ser infeliz e acomodada na insatisfação do que eu.

Entretanto, constatei, novamente, o quanto sou influenciável, manipulável e cordata ao obedecer por mais de quatro décadas os desígnios do socialmente melhor aceito (na corrente do status e dinheiro) em contrariedade ao meu desejo e natureza de interagir espontaneamente com pessoas, compreender a vida e expressar minhas percepções sem regras preestabelecidas.   

Esse compromisso não era para mim e eu não tinha porque assumi-lo. Tirei da caixa o vestido branco, estendi sobre a cama, coloquei minha aliança por cima, ajeitei a grinalda e o véu junto a todas as anotações, registros dessa história, tirei uma fotografia e embalei. O telefone tocou e minha amiga eufórica disse: “Acabo de desistir do mestrado. Enfim, nada de lattes, títulos, artigos obrigatórios... Era tudo uma farsa...”. Peguei o pacote, passei no correio e saímos para brindar, com um champanhe, as desistências necessárias, aquelas que nunca nos apoiam ou ensinam, mas que são fundamentais para a saúde mental, emocional e até mesmo física. É quando se abre a possibilidade de um final realmente feliz. 

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